494 ANOS DA REFORMA

>> quarta-feira, 26 de outubro de 2011



Os Cinco Solas Deturpados

Estamos no mês em que a reforma protestante completa 494 anos, e em muitas igrejas históricas essa data não é nem mencionada.
Em contra partida, igrejas que não tem nenhuma ligação direta com a reforma tem dado a sua própria interpretação da reforma protestante e mais particularmente ao que conhecemos como os cinco lemas da reforma.


O SOLA GRATIA DETURPADO

“Somente a Graça” , assim como quase todas as palavras, o termo “graça” teve o seu sentido original deturpado.
Quando essa palavra é pronunciada, as pessoas têm a noção de que a graça de Deus é algo que ele deve a cada um dos seres humanos, geralmente associamos essa palavra com o favor de Deus para com todos (graça comum).
E há quem pense que Deus não é gracioso se não der uma oportunidade de salvação a todos os homens, como se a graça de Deus fosse uma obrigação que ele tem para com todos os homens.

Mas o que os reformadores queriam dizer com “sola gratia”? (somente a graça), a afirmação de que somente um ato da graça de Deus poderia nos tirar de nossa condição terrível de morte espiritual (Ef 2,8) exclui qualquer obrigação de Deus para conosco, pois a graça de Deus no que tange ao seu tratamento para com os homens é um Dom, e no exercício de sua soberania ele os distribui a quem quer :
"Pois, da mesma forma que o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, o Filho também dá vida a quem ele quer dá-la. (Jo 5,21)
Pois ele diz a Moisés: "Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão" (Rm 9:15)
O exercício da misericórdia e da bondade de Deus não são obrigatórios para com os homens, até porque, nós merecemos a ira de Deus e a condenação eterna por termos aviltado a glória e a santidade de um Deus eterno.
Quando os reformadores diziam “sola gratia” não estavam dizendo simplesmente que a salvação não é mais conquistada pelas obras, mas estavam dizendo que nós não temos qualquer direito ou reivindicação a fazer diante de Deus, e que mesmo Deus salvando somente quem ele quer, não fará dele menos gracioso do que ele é, pois a graça de Deus é um atributo de Deus.


O SOLA FIDE DETURPADO:

“Somente a fé” essa declaração aponta originalmente para a questão da justificação pela “Fé somente”, que no dizer de Lutero “é a doutrina sobre a qual a igreja está de pé ou cai”.
Recentemente, ao ouvir uma breve exposição sobre o sola fide, vi que nada foi dito a respeito da justificação pela fé, muito pelo contrário, o que ouvi foi uma abordagem tão divorciada do seu sentido original que a fé presente nessa fala apenas substituiu como obra meritória as próprias obras que estavam sendo colocadas como condição de salvação pela igreja romana na idade média.
Precisamos entender que a “Fé” presente nessa declaração, não é algo que o homem já nasce com ela, mas é um dom de Deus (Ef 2, 8-10). Os reformadores não estão defendendo “a fé na fé”, ou declarações contraditórias do tipo: ”Deus não exige nada de você, apenas que você tenha fé”.
Na teologia dos reformadores a fé não era uma moeda de troca pela salvação, o sola fide expressava não somente uma postura contrária a venda de indulgencias e à prática de boas obras como condição para se adquirir a salvação, mas também enfatizava que essa fé que faz o pecador enxergar que os méritos de cristo são transmitidos a ele, é puro dom de Deus:
“Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele”, Filipenses 1:29
“... fé da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo”. Efésios 6:23
“... da fé que Deus repartiu a cada um”. Romanos 12:3
“De sorte que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus”. Romanos 10:17


O SOLA SCRIPTURA DETURPADO

“Somente a Escritura” geralmente quando estudamos sobre a reforma entendemos de cara o sola scriptura, pois essa afirmação diz respeito à posição dos reformadores quanto à tradição da igreja católica que naqueles dias era posta em pé de igualdade ou até mesmo superioridade às escrituras.
Os reformadores rejeitaram a tradição como autoridade normativa para a igreja, mas será que o conceito de sola scriptura se resumia a rejeitar a tradição da igreja?
Em nossos dias a doutrina da suficiência das escrituras tem sido abandonada e quase sempre deturpada. Quando os reformadores diziam sola scriptura estavam afirmando a suficiência das escrituras não somente quanto à tradição da igreja, mas acima de tudo quanto a revelação de Deus para a humanidade, as escrituras eram a palavra final de Deus.
Os mesmos que dizem hoje “sola scriptura” são também os que defendem que a escritura não é suficiente para eles, pois ainda estão à procura de uma “palavra” de Deus pra suas vidas ou até mesmo de uma nova revelação “quentinha” da parte de Deus e à parte das escrituras que sirva como guia pra suas vidas.
Os que confessam atualmente os solas da reforma também acreditam que Deus pode falar “extra-scriptura”, algo totalmente novo que ele ainda não tinha revelado em sua palavra.
Pra essas pessoas as escrituras não são suficientes e a confissão sola scriptura não passa de mero reconhecimento de que a bíblia também é a palavra de Deus.


O SOLUS CHRISTUS DETURPADO

A igreja medieval estava cheia de “mediadores”, o culto aos santos e as relíquias eram com certeza a bola da vez.
Quando os reformadores afirmaram a suficiência de Cristo estavam rompendo com toda a gama de intercessores e mediadores que faziam parte do panteão da igreja romana.
A pergunta que se deve fazer é a seguinte: quem era Cristo para os reformadores?
Alguém poderia argumentar da seguinte maneira: eu até concordo com a erosão e deturpação dos outros solas, mas não tem como a igreja evangélica ter pervertido a crença na suficiência de cristo como salvador e mediador (a não se que ela tenha se tornado uma seita).
Se os outros solas estão comprometidos, então não há como o solus christus permanecer intacto.
Se o ensino da graça soberana saiu dos lábios do próprio Cristo, mas o que vemos hoje em dia é na verdade uma espécie de universalismo, o solus christus foi abandonado.
Ainda que as confissões da igreja moderna quanto à divindade de Cristo sejam defendidas, que espécie de Deus não pode fazer valer a sua vontade soberana?
Quando a fé salvadora é reduzida a mero pensamento positivo sobre Deus, ou quando se ensina que todos possuem dentro de si mesmos a capacidade de crer salvadoramente em Deus, então o solus Christus está sendo uma mera confissão subjetiva, pois que necessidade haveria de um sacrifício divino e substitutivo se todos nós já possuíamos a capacidade de exercer a Fé que nos salvaria?
Dizer que acredita na suficiência das escrituras, mas apoiar-se em experiências subjetivas e emocionais como a palavra final de Deus, é negar o solus christus, pois foi o próprio Cristo quem nos ensinou que tudo que precisávamos saber ou crer a respeito dele estava nas Escrituras (Lc 24,27).
Quando se confessa um Cristo que morreu apenas para possibilitar a salvação, e que apesar de ser “soberano” não pode interferir no “livre-arbítrio” dos homens, e que é incapaz de sustentar e fazer perseverar até o fim aquele por quem ele morreu, com certeza esse não era o solus christus da reforma, mas infelizmente é o cristo que é confessado e pregado pela grande maioria dos evangélicos modernos.


O SOLI DEO GLÓRIA DETURPADO

“Somente a Deus a glória” parece até irônico, num tempo em que é tão comum ouvirmos pessoas gritando nos cultos “Glória a Deus!” é justamente o tempo onde Deus tem sido menos glorificado.
Esse brado dos reformadores nos lembra a verdade de que não resta glória alguma para o homem na obra da salvação (e em nenhuma outra obra).
A glória de Deus estava sendo aviltada no período dos reformadores quando o poder aquisitivo era capaz de comprar a salvação (as indulgencias).
Nos nossos dias a glória de Deus também é aviltada quando alguém diz que Deus faz 99% na salvação, mas nós precisamos fazer 1% de modo que o sujeito não é salvo por Deus, mas Deus apenas o ajudou a se salvar.
No evangelho atual, “glória a Deus” se tornou uma resposta por aquilo que ele nos proporcionou de bom nessa vida, ou por alguma promessa de prosperidade que supostamente ele nos fez em alguma reunião.
Só poderemos dizer como os reformadores “soli Deo glória” quando entendermos que a graça é um milagre de Deus que soberana e livremente nos alcançou. Quando confessarmos que a “nossa” Fé não é algo inato, mas que foi o próprio Cristo quem nos deu a graça de crermos nele (Fl 1,29) e que ele mesmo é o “Autor e consumador da nossa fé” (Hb 12, 2).
Deus só será glorificado por nós quando reconhecermos que a sua palavra escrita é suficiente para responder aos anseios do nosso coração corrompido. Quando o cristo for confessado como Deus verdadeiro e salvador nosso, quando não restar nenhuma glória para o homem.

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