A LEI DE DEUS,O PECADO,A GRAÇA E A FE

>> segunda-feira, 16 de maio de 2011


A LEI DE DEUS - [...] A palavrinha "lei" não a deve entender, neste caso, de maneira humana, como se fosse uma doutrina acerca das obras que devem ser feitas ou evitadas, como é o caso com as leis humanas, as quais são cumpridas por meio de obras, mesmo que o coração não esteja junto; o que Deus julga é o fundo do coração; por isso também sua lei reivindicava o fundo do coração e não se dá por satisfeita com obras; ao contrário, ele pune aquelas obras que não vêm do fundo do coração, por serem hipocrisia e mentira. Daí por que todas as pessoas são chamadas de mentirosas (SI 116), porque ninguém cumpre nem consegue cumprir a lei de Deus do fundo do coração; pois cada um encontrará dentro de si mesmo a indisposição para o bem e a disposição para o mal. E onde não houver livre disposição para o bem, o fundo do coração não estará com a lei de Deus, ali com certeza haverá pecado e merecida ira de Deus, ainda que por fora pareça haver muitas boas obras e vida honrada [...]

O PECADO - [...] significa na Escritura não somente a obra exterior do corpo, e sim toda a atividade que se inquieta e movimenta ao se fazer a obra exterior, ou seja, o fundo do coração com todas as forças, de sorte que a palavrinha "fazer" significa: a pessoa cai e anda inteiramente no pecado. Pois de qualquer maneira não acontece nenhuma obra exterior do pecado sem que a pessoa participe plenamente, de corpo e alma [...]

A GRAÇA - [...] Pode acontecer que as dádivas e o Espírito aumentem diariamente em nós e ainda assim não sejam perfeitos, de sorte que ainda restem em nós maus desejos e pecado a se oporem ao Espírito, conforme capítulo 7.5ss e Gálatas 5.16ss, e a promessa de contenda entre a semente da mulher e a semente da serpente. Ainda assim a graça é tal que perante Deus somos considerados inteira e plenamente justificados; pois sua graça não se divide e não vem em parte, como acontece com as dádivas, mas nos acolhe totalmente na benevolência, por causa de Cristo, nosso intercessor e mediador [...]

A FE - [...] Fé não é a ilusão e o sonho humano que muitos acham que é. E quando vêem que não acontece uma melhoria de vida nem boas obras e ainda assim muito ouvem e falam da fé, caem no erro de dizer que a fé não é suficiente, que seria preciso fazer obras, se é que se quer ficar justo e salvo. A conseqüência disso é que, ao ouvirem o evangelho, agem precipitadamente e, por esforço próprio, criam um pensamento no coração, que diz: "Eu creio". Isso eles então consideram uma fé como deve ser. Mas assim como isso não passa de inspiração e pensamento humano, que jamais atinge o fundo do coração, também nada ocasiona, tampouco se segue uma melhoria.

Fé verdadeira, entretanto, é uma obra divina em nós, que nos modifica e faz renascer de Deus (Jo 1.3), além de matar o velho Adão, transformando-nos em pessoas bem diferentes de coração, sentimento, mentalidade e todas as forças, trazendo consigo o Espírito Santo. Ah, há algo muito vivo, atuante, efetivo e poderoso na fé, a ponto de não ser possível que ela cesse de praticar o bem. Ela também não pergunta se há boas obras a fazer, e sim, antes que surja a pergunta, ela já as realizou e sempre está a realizar. Quem, porém, não realiza tais obras, é pessoa sem fé, que anda às apalpadelas à procura da fé e de boas obras e nem sabe o que é fé nem boas obras, e ainda fica falando muito e conversando fiado sobre as mesmas [...]

LUTERO, Martinho. Pelo Evangelho de Cristo: Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma. Trad. Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia & São Leopoldo: Sinodal, 1984. pp. 179-192.

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